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Você pode ter lido que, se não aprender com a história, está fadado a repeti-la. Isso é parte da razão pela qual é importante revisar nossa história e rever os erros que cometemos. Nós tentamos aprender com nossos erros, o que é realmente a única coisa que você pode fazer com um erro – aprender com ele.

“Falhe para cima” era um ditado frequentemente citado em nossos primeiros dias com a plantação da Redeemer.

No decorrer dos primeiros dias de plantação da Redeemer, quando Tim estava estudando a demografia, conhecendo as pessoas, vendo os erros e a surdez das plantações de igrejas que falharam e estabelecendo as bases para a igreja, desenvolvemos um conjunto de valores centrais para a Redeemer. Ao longo dos anos, também desenvolvi minha própria lista de valores centrais não oficiais, ou talvez pudéssemos chamá-los de entendimentos-chave. Estas são lições aprendidas por tentativa e erro, falhas cometidas e depois corrigidas. Isso não é tudo o que aprendemos nos trinta anos que estivemos na Redeemer, mas alguns dos erros dos quais nos beneficiamos, lições que não aparecem em nenhum novo treinamento de contratação ou manual corporativo. Eu quero ter certeza de que eles não se perderão, porque são coisas que podem melhorar ou quebrar uma organização, incluindo uma igreja.

 

  1. O principal valor, que é a Primeira Diretriz, é: a igreja como estamos acostumados não funcionará.

Essa foi a primeira coisa que determinamos antes mesmo de nos mudarmos para cá. Nós não poderíamos apenas importar o modelo rural ou suburbano de nossa igreja anterior em Hopewell, Virgínia, mesmo que tivesse sido bem-sucedido em seu tempo e lugar. De fato, nada poderia ser feito simplesmente porque tinha sido bem-sucedido em outro lugar, ou porque as igrejas sempre fizeram assim. Nós tivemos que perguntar: “Ele se encaixa em Nova York? As pessoas entenderiam isso? Isso ficaria no caminho dos não cristãos para que ouçam o evangelho?” Essas são as perguntas que fazemos a cada escolha, começando com o nome da Redeemer.

Quando começamos a nos reunir com nosso comitê de direção no inverno de 1989, Tim e eu anunciamos, certo domingo, que havíamos pensado sobre o nome dessa nova igreja e decidimos que se chamaria Christ the King (Cristo Rei).

Uma ex-missionária que se mudou para Nova York para fazer parte da igreja disse: “Oh, não, isso é terrível, isso soa tão triunfalista. Você precisa de algo mais parecido com Redeemer [Redentor]”. Ela havia participado de uma Igreja do Redentor em Winston-Salem, na Carolina do Norte, e argumentou que esse nome tinha mais uma sensação de ser um ajudante, ou de tirar você de um buraco ou de fazer algo positivo para as pessoas. Consideramos a Primeira Diretriz (“a igreja como estamos acostumados não funcionará”) e dissemos: “Sim, você está certa”, muito embora já tivéssemos impresso e distribuído material com o nome de Christ the King. Durante anos, as pessoas nos perguntaram sobre a Igreja de Cristo Rei em Nova York, pessoas que tinham ouvido falar sobre isso, mas esse nome foi um erro, então nós mudamos.

 

  1. Isso traz uma compreensão corolário, um enorme mantra por aqui, durante pelo menos uma década: Precedente não significa nada.

Se você tentar algo e não funcionar, desfaça-o. Não sinta que você tem que ficar com algo só porque você colocou muito tempo, energia e dinheiro em um plano. Se fede, não faça isso. Não dê ouvidos às pessoas que dizem: “Se fizermos isso, estamos comprometidos a continuar fazendo”. Não, você não está. Se você fizer algo e não funcionar bem, você simplesmente não o fará novamente. Precedente não significa nada. Isso foi verdade logo no início com o nome da nossa igreja.

Quando digo que nos comprometemos a fazer nada porque foi assim que vimos ou desfrutamos em outro cenário, eu realmente quero dizer nada. City to City é a primeira expressão institucional desse valor.

Originalmente, nós tivemos muitas pessoas buscando nossa igreja, tanto não cristãos como novos cristãos. Nós não tínhamos muitos membros com muito tempo de convertidos, porque pela misericordiosa providência de Deus, outras igrejas atraíram todos os cristãos autoproclamados para suas congregações. Isso se revelou uma vantagem maravilhosa, porque não tínhamos o constante refrão de “sempre fizemos assim”, “é assim que a igreja funciona” e “é assim que devemos fazê-lo”. No entanto, aqueles poucos cristãos mais antigos que compareceram estavam cientes de que toda igreja deveria ter um comitê de missões transculturais, e eles sabiam como as missões transculturais funcionavam. Você forma um comitê, convida um grupo inteiro de missionários para visitar e apresentar seu chamado ou sua visão, você dá a cada um deles um modesto apoio financeiro mensal e você recebe relatórios.

Eu devo admitir, Tim e eu estávamos ocupados, então deixamos que eles administrassem. E para ser justa, isso era tudo o que nós também sabíamos acerca de missões transculturais.

Então algo engraçado começou a acontecer. Passamos a receber delegados da Holanda e depois da China dizendo: “Não sabemos como alcançar nossas cidades. Nossas igrejas tornaram-se muito suburbanizadas ou mesmo rurais. Vocês estão bem na cidade, então nos diga o que vocês estão fazendo para que possamos fazer também.” Começamos a perceber que isto era o que a Redeemer tinha para oferecer às pessoas: experiência e conhecimento sobre alcançar os céticos nas cidades.

Aí, muito em breve, o Centro de Plantação de Igrejas da Redeemer foi inaugurado para substituir o comitê de missões transculturais, e daí veio a Redeemer City to City. City to City existe porque nós (ou seja, aRedeemer) corrigimos e fizemos missões transculturais de uma maneira que se encaixa em nossos dons como uma igreja, e não da maneira que nós sempre vimos acontecer.

 

  1. Outro valor central que se originou da Primeira Diretriz (a igreja como estamos acostumados não funcionará) é que excelência é inclusiva.

Nós remuneramos nossos músicos, embora não pudéssemos pagar uma grande quantia. Nós respeitamos o fato de eles ganharem a vida dessa forma, e em troca eles também respeitavam a igreja. Eles trouxeram seus amigos. Certa vez fizemos uma pesquisa e descobrimos que tínhamos entre trezentos e quatrocentos músicos profissionais que frequentavam a igreja. Se você quisesse cantar ou tocar na Redeemer, teria que fazer um teste, algo inédito em uma igreja na época.

Mas acreditávamos que a excelência na música e em todos os outros rostos públicos da Redeemer era inclusiva, e isso se aplicava ao departamento infantil, ao boletim, ao momento do café – tudo era mais inclusivo se fosse feito com excelência, porque mesmo se você não fosse um crente, você poderia apreciar a música, ou você poderia ficar impressionado com a creche, ou você poderia dizer: “Eles estão oferecendo pãozinho com requeijão na hora do café. Uau.”

Bem no início, quando tudo que tínhamos para representaar fisicamente a igreja era um folheto, uma das primeiras participantes da Redeemer, uma designer gráfica, pegou o caderno. Ela olhou e disse: “Cores. Brasão de verniz. Isso é legal. Essas pessoas devem ser sérias.”

Eu tinha lutado por esse folheto. Eu trabalhava em uma editora cristã na Filadélfia, e o departamento de arte me ajudaria, produzindo o folheto para mim. Eles tentaram tanto me convencer a fazê-lo em papel mais barato, em tons de marrom e aipo. Eu disse “Não, não, não. Eu quero que pareça com este folheto que veio de um banco me oferecendo um cartão de crédito. Colorido. Brilhante. Agradável.” No entanto, isso teve um custo. O folheto que fizemos custou cinco vezes que a versão marrom e aipo no papel mais barato. Um corolário desse valor é que a excelência vem com um preço. Se um problema pode ser resolvido com dinheiro, graxa, tempo ou trabalho pesado, gaste o tempo ou o dinheiro. O esforço será notado.

O resultado disso foi que demorou muito mais para a igreja se tornar auto-sustentável do que se tivesse sido feito de outra forma. A oferta de domingo rapidamente foi grande o suficiente para cobrir nosso orçamento inicial, mas tínhamos tantas pessoas chegando que precisávamos começar a contratar funcionários imediatamente, o que significava que tínhamos que ter um orçamento maior para bancar um espaço administrativo, e então tivemos que contratar mais pessoas. Isso significou que, por volta da terceira ou da quarta vez em que revisamos nosso orçamento, poderíamos ter sido auto-sustentáveis, mas isso teria sido o fim das contratações de pessoal. Nós apenas continuamos ajustando o orçamento.

Caso contrário, não teríamos conseguido aproveitar as oportunidades que surgiram. Qualidade não sai barata. Esse é um valor muito exigente, mas é melhor não fazer nada do que fazê-lo mal. Estas são lições aprendidas no contexto de Manhattan, Nova York. Em outras localidades, a moeda pode ser o tempo ou a ajuda voluntária na comunidade, mas seja como for, fazer o melhor, em vez de se contentar com “bom o suficiente”, atrairá aqueles que são céticos em relação à igreja cristã.

 

  1. Outra descoberta que fizemos foi que a espontaneidade era assustadora para os nova-iorquinos que estavam apreensivos com a possibilidade de frequentar uma igreja.

Combinada com a lição de que a excelência é inclusiva, isso levou diretamente à produção de um boletim muito robusto de adoração de domingo, com todos os hinos incluídos, todas as orações escritas, tudo lá, então todos sabiam o que aconteceria em seguida. Não haveria nenhum inesperado manuseio de cobras! Se não estava no boletim, não aconteceria.

Claro, você não pode controlar tudo, e eu lembro do tempo em que eu estava sentada em um banco de trás e uma mulher, sentada ao meu lado, se virou para mim e disse: “Para quem aquela mulher está acenando?” Eu olhei (foi durante uma música) e disse: “Eu acho que ela está acenando para Deus”. Era apenas alguém que sentiu vontade de levantar as mãos, algo que minha vizinha de banco nunca havia visto antes.

Ah, e quando uma mulher levou seu cachorrinho para a igreja, Tim chegou em casa e disse: “Bem, eu tenho pregado o evangelho a toda criatura”. Nós também tivemos um ladrão que veio correndo para hora da hospitalidade. A polícia o algemou e o jogou por cima do capô do carro atrás daquele onde todos os meus filhos estavam sentados, parecendo um reality show da TV. Essa é outra história.

Outras comunidades podem ser mais tolerantes a eventos espontâneos do que os habitantes de Manhattan que estávamos alcançando, mas é por isso que a contextualização é tão importante. Você tem que aprender o que criará dificuldades para os não-cristãos que precisam ouvir as boas novas de Jesus Cristo e removê-los, sejam eles quais forem e por mais preciosos que sejam para você.

 

  1. Guardei a lição mais importante para o final: a análise cuidadosa da nossa linguagem é a coisa mais importante que podemos fazer.

Não consigo encontrar palavras suficientes para enfatizar o quanto isso é importante. Precisamos ter cuidado com a forma como escolhemos nossas palavras, nossas imagens e nossas ideias quando nos comunicamos, não importa o que estamos comunicando – seja atualizações de doadores, palestras ou e-mails sobre eventos que estão surgindo. Você definitivamente deve vasculhar todas as frases subculturais cristãs que confundem tanto a igreja cristã. Isto é de vital importância, e talvez seja ainda mais importante hoje do que há 30 anos, porque o momento cultural em que estamos agora detesta os cristãos evangélicos, e não precisamos dar a eles mais motivos para desrespeitar e não gostar de nós.

A Redeemer tem sido muito boa nisso, em parte porque, na verdade, era uma das principais partes da atribuição do meu trabalho procurar e destruir qualquer piousbabble [baboseira piedosa]. Essa é a palavra que eu cunhei para descrever a linguagem que não deve ser falada. Você já ouviu falar de psychobabble? Isso é psicologia pop extraída de frases de efeito, mídia, pontificação de podcasts e outras fontes não acadêmicas.

Piousbabble são aquelas frases e palavras que se arrastam pelas suas orações e em sua linguagem. “Senhor, nós apenas, nós apenas, Senhor … Nós queremos navegar nas tuas misericórdias, queremos banhá-lo em oração, e precisamos de guerreiros de oração, e nós precisamos de uma cobertura espiritual.” Tudo isso parece normal para a maioria dos cristãos. Mas é como Swahili para os descrentes e os interessados que estão chegando.

Fiquei chocada e horrorizada quando uma das minhas amigas, que era uma lésbica radical, e que tinha chegado à fé, começou a falar usando piousbabble. Ela ouvia rádio cristã e música de louvor, e achava que era assim que os cristãos maduros falavam, então ela falava comigo nessa língua e eu dizia: “Não, não, não. Você não fala assim. Apenas fale normal. Fale como uma pessoa normal!”

Agora, eu não teria a menor idéia de como te aconselhar sobre como avaliar e aconselhar os plantadores de igrejas ao redor do mundo em relação ao que é piousbabble na cultura da sua igreja, mas é fundamental que você faça algum tipo de tentativa. A igreja evangélica, como eu disse, não é tida em alta consideração neste país, nem em outros países. Você precisa que as pessoas falem como pessoas normais, e não fiquem restritas um lugar subcultural, de linguagem privilegiada. Os já crentes entre vocês podem nem mesmo perceber a ausência de evangeliquês, mas significará tudo para os não cristãos que estão tentando perceber o evangelho que é freqüentemente escondido sob camadas de práticas e linguagem subculturais.

Quando tivemos o comitê de missões, um dos responsáveis achou por bem escrever um artigo baseado no Salmo 2.9-12: “Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos nele com tremor. Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam.” Ele passou a falar sobre Jesus pisando as uvas da ira, etc, etc.

Aquilo definitivamente não foi a voz ou a filosofia do ministério da Redeemer. Eu devo dizer que ainda lamento a aspereza com a qual eu joguei aquele jovem sobre as brasas. Mesmo feito com tato, não podia ser tolerado, nem por um minuto. Não era nossa cara ter esse tipo de atitude “acredite ou queime”.

Termino dizendo que devemos imitar a Cristo, que não agradou a si mesmo. Romanos 15: “Ora, nós que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos. Portanto, cada um de nós agrade ao próximo no que é bom para edificação. Porque também Cristo não se agradou a si mesmo ”. Nos primeiros anos, nos treinamos rigorosamente para não tomar nenhuma decisão baseada no que gostávamos ou nos sentíamos à vontade, mas em como ela seria avaliada e recebida por céticos nova-iorquinos. Nós crescemos, e a equipe é três vezes o tamanho da primeira congregação que atravessou as portas da Redeemer. Se isso foi perdido, temos que recuperá-lo. Se não foi perdido, temos que nos agarrar a isso.

Se temos alguma esperança de um movimento que é baseado no poder do evangelho, temos que tê-lo tão profundamente enraizado que podemos ensiná-lo a outras pessoas, tanto o que quanto o porquê, sem qualquer orgulho, sem qualquer condescendência, mas com o conhecimento que nos foi confiado, os erros que cometemos, o aprendizado que adquirimos da maneira mais difícil, e considerarmos um privilégio transmiti-lo.

 

Kathy Keller se formou no Seminário Teológico Gordon Conwell com seu mestrado em Estudos Teológicos em 1975. Ela acabara de se casar com Tim Keller seis meses antes. Depois de passar nove anos criando seus três filhos enquanto Tim pastoreava sua primeira igreja em Hopewell, VA, eles se mudaram para a Filadélfia, onde Kathy trabalhou como editora para a Great Commission Publications, enquanto Tim estava na faculdade do Seminário de Westminster. Finalmente, ela e Tim se mudaram para Manhattan em 1989, onde Tim pregava e Kathy era toda a equipe da Redeemer Presbyterian Church. Como outras mulheres e homens foram contratados, seu papel na equipe passou a ser o de Diretora Assistente de Comunicações. Ela escreveu para o The Gospel Coalition, co-escreveu três livros com o marido e escreveu Jesus, Justice e Gender Roles como autora única.

Este artigo é baseado em uma palestra dada à equipe da Redeemer City to City.

Traduzido por Felipe Barnabé Duarte

Fonte: https://medium.com/redeemer-city-to-city/lessons-learned-from-30-years-in-ministry-e580d4afb846

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