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Zygmunt Bauman cunhou o termo modernidade líquida para se referir à sociedade em que vivemos mais ou menos desde a segunda metade do século XX. Esse termo era para descrever o que se chama de pós-modernidade. Para mim, é uma ótima descrição e uma comparação muito apropriada, pois a pós-modernidade é justamente isto: um vazio de absolutos e um emaranhado de questionamentos (não?). Não havendo absolutos, não há o terreno sólido, pois onde piso pode ser para mim um chão e para você o vento, onde estou pode ser para mim fundo, para você raso, para mim salgado, para você doce. Existem muitos relativos, o ponto de vista muda muito o formato do que se vê.

Esse paradigma tem sido cada vez mais verdade no campo científico. Ironicamente, os estudiosos andam a passos largos para achar respostas, por exemplo, de como tudo começou, mas parecem correr atrás de uma utopia – aquela que não se alcança. Em tese, esse seria um caminho para o absoluto, para a ausência de dúvidas. Entretanto, a cada dia se chega mais perto do relativo e surgem mais perguntas para cada resposta encontrada. Com isso, não somente a realidade da modernidade se torna líquida, mas a vida nela inserida também.

Nesse contexto, as pessoas têm suas vidas cada dia mais liquefeitas mesmo não fazendo ideia do que seja Bóson de Higgs ou antimatéria. Uma grande evidência dessa liquefação é a virtualidade. Afinal, nela tudo existe ao mesmo tempo em que nada é concreto. Isso não é parecido com as últimas conclusões sobre o elétron (sabe-se que ele existe, mas não se pode precisar onde ele está)? Ficaria o pensador do conceito modernidade líquida feliz ao se deparar com o mundo virtual por perceber que ele estava, enfim, muito certo, ou ficaria estupefato por vislumbrar algo que parece ser mais que líquido: gasoso?

É de se pensar a relação que existe entre a realidade líquida para a ciência, por sua ausência de absolutos, e a realidade líquida do cotidiano, por sua ausência de relacionamentos, de vida. No caminho em que tudo se questiona e o paradigma serve somente para ser quebrado, é natural que nada escape. Há muito já se ousou dizer que Deus está morto, mas o que se percebe agora é que as pessoas – essas mesmas que questionam tudo – estão morrendo. Não me refiro aos milhões de famintos cuja esperança já foi esgarçada. Refiro-me aos milhares que estão se inserindo mais e mais no líquido, no virtual, para fugir do sólido que tanto incomoda. Relações virtuais são criadas para substituir as materiais, pois no mundo virtual o controle é maior: decido ser amigo, gostar, com simples ações que se resumem a sim ou não. Isso é bem mais fácil que os relacionamentos da velha e dura realidade, onde não se tem controle de quase nada, não se escolhe amar, não se escolhe viver, vive-se. Na virtualidade existem padrões, na realidade existem idiossincrasias.

Talvez seja mesmo de se esperar o movimento em massa no sentido do que é líquido, pois ali há mais espaço para movimentação. Com esse espaço, se cria, se inventa e se disfarça. Na realidade líquida cheia de possibilidades você pode até criar a sua própria realidade, aquela que você queria tanto que existisse solidificada, mas não consegue. Até certo ponto isso é bom, pois dá suspiro a quem se sente asfixiado e liberdade a quem se sente preso. Contudo, pode ser que toda essa liquidez acabe fazendo com que todos se afundem, se afogando e percebendo que na verdade todos precisam mesmo de um chão.

De qualquer forma, nem tudo é tão ruim. A evidência virtual da pós-modernidade pode ser um fio condutor ao destino dos questionamentos científicos. Cabe pensar se não é bom que haja bases, que caminhar pra frente não significa necessariamente destruir a paisagem que se tenta alcançar, que alguns conceitos precisam ser preservados e dogma não é algo tão negativo assim. O que se observa na virtualidade é que as pessoas estão mergulhando nessa realidade nova, líquida e alternativa em busca de abrigo da vetusta, dura e cruel realidade que sempre os perseguiu, mas que essa fuga não tem como durar muito, pois entregar-se à nova implica em matar a velha, mas morrer na velha é também morrer na nova. Por isso, sem a antiga dureza não há nem uma nem outra.

Espero que os cientistas sejam sábios o suficiente para perceber o ponto crucial em que será necessário parar para preservar o fino elo entre o que se quer e o que se tem, assim como todas as pessoas. Que percebamos o momento em que devemos conter o ímpeto de busca pelo paraíso virtual, líquido; e valorizar a realidade na qual estão os queridos esperando por um abraço, ou até mesmo a terna lembrança dos que se foram, mas que realmente existiram.

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