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Você já parou para pensar no valor que há no livro de Provérbios? Em seus 31 capítulos há diversas recomendações de um pai (Salomão) a seu filho. De forma recorrente, Salomão alerta seu filho a respeito do valor da sabedoria, do perigo da tolice, fala do alerta necessário diante de uma mulher ardilosa e no cuidado imperioso que se deve ter para com a preciosidade que é uma mulher sábia e fiel, além de tantas outras recomendações. Se admitirmos que é possível extrair o principal conselho desse pai em Provérbios, creio que se destacam as várias recomendações para que o filho confie no Senhor e não em seu próprio entendimento, aprenda que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria e que Deus detesta o perverso.

O trecho do capítulo 3, versos 5 a 8, é bastante explícito nesse sentido: “Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas. Não seja sábio aos seus próprios olhos; tema ao Senhor e evite o mal. Isso lhe dará saúde ao corpo e vigor aos ossos.”
Salomão usa frases tão simples que a profundidade de suas lições pode passar desapercebida, apesar de ele deixar claro que a obediência a suas palavras implicará saúde ao corpo e vigor aos ossos. Imagine! Já parou para pensar nos efeitos que atitudes sábias ou tolas podem ter em sua vida? Este é o nível de impacto que decisões equivocadas, não sabias, podem provocar em nossas vidas: doença e fraqueza nos ossos!

Como a vida é um enorme amontoado de decisões que tomamos desde muito cedo, ter sabedoria é essencial para que o curso da existência tenha bom êxito ou se depare apenas com fracasso e ressentimento. Consciente dos impactos das decisões que tomamos e certamente arrependido de algumas decisões erradas, Salomão adverte seu filho revelando segredos que não percebemos talvez por estarmos cegos pelo pecado. Na verdade, podemos resumir em dois grupos de segredos – e esse padrão se repetirá por todo o livro –, aqueles relativos a Deus e aqueles relativos a si mesmo.

Acerca de Deus, cabe a nós reconhecer sua bondade e soberania, e fazemos isso confiando nele de todo o coração, reconhecendo o Senhor em qualquer direção que tomarmos, e temendo o Senhor. Quanto a nós mesmos, basta fazer o que é naturalmente oposto a um comportamento distante de Deus: não se apoie em seu próprio entendimento, não seja sábio aos seus próprios olhos e evite o mal.

Porque esses conselhos de Salomão são extremamente desafiadores apesar de expressos com tanta simplicidade? Simplesmente porque eles combatem frontalmente nosso comportamento natural. Nosso ser caído é ávido por acreditar em si e nas próprias forças, o homem sempre tende e se achar muito esperto, e a maldade é como um imã que atrai nosso coração feito de metal pesado.

O conselho de não se apoiar em seu próprio entendimento é tão importante que toda a confusão filosófica e cultural a partir da modernidade pode ser considerada uma desobediência a esse conselho. É a partir da confiança primária no próprio entendimento que o homem moderno passa a dar passos largos rumo ao vazio existencial sem Deus. Por se apoiar em seu próprio entendimento, o homem moderno acredita que é essencialmente homo sapiens, sendo que a Bíblia nos ensina a respeito da primazia na confiança em Deus, o que faz do homem um ser essencialmente religiosus. Isso significa que fomos feitos para adorar a Deus e moldar nossas vidas a partir disso. Sob uma perspectiva cristã, olhamos para Cristo e nos apegamos a ele como nosso mediador, senhor, salvador, amigo e irmão.

Ainda sobre nosso tempo, um fenômeno que acompanha a confiança no próprio entendimento por meio da fé na razão é o volume de informação que se produz e consome. É assustador pensar que toda a informação produzida na internet diariamente não caberia em grandes bibliotecas que levaram anos a fio para serem preenchidas. Muito embora o homem moderno tenha obtido a capacidade de produzir muito conhecimento e acessar muita informação online, a sabedoria segue como peça rara. Salomão chama a atenção do seu filho para que ele não cometa o erro de se achar sábio aos próprios olhos. É dizer, não pense errado sobre si mesmo, pois para alcançar sabedoria é necessário olhara para Cristo. Achar-se sábio já é uma evidência de falta de sabedoria. Ao contrário, somos convidados a confiar no Senhor. Especificamente, Provérbios nos ensina se expressarmos nossa confiança no Senhor em temor teremos sabedoria, afinal, “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria”.

Por fim, Salomão lança um desafio entre os mais difíceis: evitar o mal. Como evitar o mal quem só faz maldade, de coração caído? Cristo. Em Cristo, nós vemos a exata expressão de Deus e a correta expressão do homem. Não precisamos especular sobre Adão para saber como é o homem sem pecado, basta olharmos para Jesus, o Deus-homem, e imitá-lo, evitando, portanto, o mal. Apesar de o conselho de Salomão parecer impossível, totalmente contrário à natureza humana caída, ele é valioso para estampar nossa dependência de Cristo!

Infelizmente, até mesmo os crentes tendem a pensar que estão evitando o mal se deixarem de fazer coisas erradas, se forem “boas pessoas”. Mas o Evangelho nos ensina que a maldade faz parte da nossa natureza caída, é inerente a nós. Nossos desejos e anseios estão todos voltados para o mal, ou seja, precisamos mesmo é de transformação e renovo por meio do Espírito Santo.

Sendo assim, é urgente anunciar às pessoas à nossa volta o Evangelho do Senhor Jesus Cristo, para que elas não mais se apoiem em seu próprio entendimento, não se achem suficientemente sábias e deixem de perseguir o mal; que confiem no Senhor. É urgente para cada um de nós olhar para Cristo, buscando nele o entendimento, a sabedoria e a bondade de que precisamos. Para isso, é preciso confiar no Senhor. Confie no Senhor.

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